A única coisa que ninguém te pode dar

Há momentos na vida em que alguém nos diz algo tão simples que, naquele momento, quase nos perguntamos porque é que aquilo ficou connosco.

E depois, dias, semanas ou até meses mais tarde, percebemos que aquelas poucas palavras mudaram, silenciosamente, a forma como nos vemos.

Foi isso que aconteceu comigo recentemente, durante uma viagem à Isla de la Luna, na Bolívia.

Tive a oportunidade de conhecer um xamã que me disse que poderia partilhar comigo muitas coisas.

Poderia ensinar-me meditações.
Recomendar-me livros.
Partilhar práticas.
Convidar-me para workshops.
Oferecer-me conhecimento e orientação.

Mas havia uma coisa que ele não me podia dar.

A capacidade de confiar em mim própria.

E depois disse-me:

“Para isso, só precisas de duas coisas:

1. Toma a decisão.
2. Arrisca.”

Não sei se ele percebeu o quanto aquelas palavras ficariam comigo.

Porque quantas vezes procuramos fora de nós algo que só pode ser construído dentro de nós?

Procuramos outro livro, outro curso, outro mentor, outra opinião, outro sinal que nos diga que estamos a tomar a decisão certa.

Por vezes, esperamos sentir-nos confiantes antes de agir.
Esperamos ter a certeza.
Saber o resultado.
Saber que não vamos falhar.

Mas talvez confiar em nós próprios não funcione assim.

Confiar em nós próprios não significa conhecer o resultado

Durante muito tempo, pensei que confiar em mim significava ter a certeza de que tudo iria correr bem.

Hoje, vejo de outra forma.

Confiar em nós próprios é saber que, aconteça o que acontecer, seremos capazes de lidar com isso.

Podemos tomar uma decisão errada.
Podemos mudar de ideias.
Podemos falhar.
Podemos descobrir que aquilo que pensávamos querer já não é o que queremos.

E, ainda assim, podemos continuar a confiar em nós.

Porque a autoconfiança não se constrói por acertarmos sempre.

Constrói-se quando aprendemos a ouvir-nos, a tomar a melhor decisão possível com aquilo que sabemos naquele momento, a assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas e a ter coragem para mudar de direcção quando necessário.

Toma a decisão

A primeira coisa que o xamã me disse foi simples: Toma a decisão.

Quantas vezes ficamos presos entre saber e fazer?

Sabemos que precisamos de ter aquela conversa.
Sabemos que precisamos de dizer não.
Sabemos que alguma coisa precisa de mudar.
Sabemos que existe algo que queremos começar
.

Mas continuamos à espera.

À espera de clareza.
Do momento perfeito.
De permissão.
De nos sentirmos preparados.

Por vezes, a clareza não vem antes da decisão.

Por vezes, a clareza vem porque decidimos.

Tomar uma decisão é um ato de confiança em nós próprios.

É dizer:“Posso não saber exatamente o que vai acontecer, mas confio em mim o suficiente para dar o próximo passo.”


Arrisca

A segunda coisa foi: Arrisca.

Não falo de correr riscos de forma inconsciente ou irresponsável.

Falo daqueles riscos que nos obrigam a sair do conforto da certeza.

Porque, cada vez que nos permitimos correr um risco com significado, aprendemos algo sobre nós próprios.

Descobrimos que somos capazes de mais do que imaginávamos.
Descobrimos que a incerteza não tem de nos paralisar.
Descobrimos que o fracasso não nos destrói.
Descobrimos que podemos recomeçar.

E, pouco a pouco, começamos a criar provas de que podemos contar connosco.


Decisão. Ação. Experiência. Confiança.

Talvez seja assim que construímos a relação mais importante das nossas vidas: a relação que temos connosco próprios.

Desde aquele encontro na Bolívia, tenho refletido sobre quantas coisas procuramos fora de nós que, no fundo, são apenas um convite
para regressarmos a nós próprios.

Podemos aprender com os outros.
Podemos inspirar-nos nos outros.
Podemos receber orientação, sabedoria e apoio.

E acredito profundamente em tudo isso.

Mas ninguém pode viver a nossa vida por nós.
Ninguém pode tomar as nossas decisões por nós.
Ninguém pode correr os riscos por nós.

E ninguém nos pode dar a capacidade de confiar em nós próprios.


Somos nós que a construímos.

Uma decisão de cada vez.
Um passo corajoso de cada vez.
Um risco de cada vez.

Talvez confiar em nós próprios não seja dizer:“Eu sei que tudo vai correr bem.”

Talvez seja conseguir dizer: “Não sei o que vai acontecer. Mas confio em mim para lidar com o que vier.”

Essa foi a lição que trouxe comigo da Isla de la Luna.

E continua a transformar a forma como caminho pela minha vida.

Talvez confiar em nós próprios não comece com certeza.
Talvez comece com uma decisão.
E depois, com a coragem de arriscar.

Até que, pouco a pouco, nos tornamos a pessoa em quem sabemos que podemos confiar.

Sabina Ali

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