Quem És Tu Sem a Produtividade?

Quando o teu valor se tornou algo que sentes que tens de conquistar.

Vivemos num mundo que aplaude o movimento.

Quanto mais cedo acordas.
Quanto maior é a tua lista de tarefas.
Quanto mais reuniões tens.
Quanto mais projetos consegues gerir em simultâneo.
Quanto mais exausto(a) estás.

A certa altura, estar ocupado deixou de ser apenas uma circunstância e passou a ser um símbolo de mérito.

Deixámos de perguntar uns aos outros: "Como estás?" e começámos a medir o nosso valor através da pergunta: "O que conseguiste alcançar?"

Sem nos apercebermos, muitos de nós fomos substituindo silenciosamente a nossa identidade pela nossa produtividade.


Quando aquilo que fazes se torna quem és

Muitas das pessoas com quem trabalho não enfrentam dificuldades por serem preguiçosas.

Muito pelo contrário.

São pessoas extremamente capazes.

Responsáveis.
Confiáveis.
Aquelas em quem todos confiam.

No entanto, por detrás de tantas conquistas, existe frequentemente uma crença silenciosa:

"Se não estou a produzir, estou a ficar para trás."
"Se estou a descansar, estou a perder tempo."
"Se não sou útil, que valor tenho?"

Estes pensamentos raramente surgem de forma evidente.

Instalam-se discretamente e tornam-se o sistema invisível que orienta a forma como vivemos.

Dizemos "sim" quando já estamos completamente esgotados.
Respondemos a emails até tarde.
Preenchemos cada momento livre com mais uma tarefa.

Não porque seja realmente necessário.
Mas porque a quietude nos parece estranha.


Porque é que descansar pode ser tão desconfortável?

Muitas pessoas acreditam que têm dificuldade em descansar porque são disciplinadas.

Na realidade, muitas vezes a dificuldade existe porque o sistema nervoso já não sabe sentir-se seguro na quietude.

Quando vivemos durante anos em modo de sobrevivência - a resolver problemas constantemente, a antecipar necessidades e a assumir responsabilidades - o nosso corpo habitua-se ao estado de alerta.

A ocupação torna-se uma forma de regulação.
O silêncio passa a ser sentido como uma ameaça.

E no momento em que paramos...

Os pensamentos aparecem.
As emoções que temos evitado começam a emergir.

A solidão.
A incerteza.
A tristeza.
O medo.

E continuamos em movimento.

Não porque o movimento nos cure.
Mas porque nos distrai.


A culpa silenciosa de não fazer nada

Alguma vez tiveste finalmente uma tarde livre...

...e acabaste por passá-la a sentir culpa?

Sentas-te no sofá.

E, quase de imediato, começas a pensar em tudo aquilo que deverias estar a fazer.

A roupa para lavar.
Os emails por responder.
As refeições para preparar.
O planeamento da semana.
Ler algo "produtivo".

Até o descanso se transforma numa tarefa que precisa de ser otimizada.

É um paradoxo curioso.

O corpo pede descanso.

Mas a mente interpreta-o como um fracasso.

O sucesso também pode ser um esconderijo

Conquistar objetivos é algo bonito.
Crescer é importante.
Ter um propósito dá direção à vida.

Não existe nada de errado em querer criar, construir ou contribuir.

O problema começa quando as conquistas se tornam o único lugar onde encontramos o nosso valor.

Quando o sucesso passa a ser a prova de que merecemos amor.

Quando ajudar toda a gente se torna a única forma de nos sentirmos necessários. Quando a agenda fica tão cheia que nunca precisamos de ficar verdadeiramente a sós connosco.

Por vezes, a produtividade não nasce da ambição.

Nasce da fuga. Da tentativa de evitar a sensação de não sermos suficientes. De evitar a desilusão.

De evitar fazer a pergunta que temos passado anos a tentar ultrapassar:

"Quem sou eu se parar?"


Existir sem precisar de provar

Imagina que acordavas amanhã...

...e não havia nada para conquistar.

Ninguém para impressionar.
Nenhuma expectativa para cumprir.
Nenhuma lista para riscar.

Quem serias?

É uma pergunta desconfortável porque muitos de nós passámos décadas a acreditar que o nosso lugar no mundo precisava de ser conquistado através do desempenho.

Mas a tua existência nunca precisou de justificações.

Uma árvore não floresce para provar o seu valor.
O oceano não pede desculpa quando está calmo.
A lua não deixa de ser bela quando desaparece durante parte do mês.

A natureza lembra-nos de algo que tantas vezes esquecemos:

Existem estações para crescer. E existem estações para restaurar. Ambas são igualmente necessárias.


Regressar a casa dentro de ti

Muitas vezes, curar não significa aprender a fazer mais. Significa recordar como simplesmente ser.

Beber uma chávena de chá sem olhar para o telemóvel.
Observar um pôr do sol sem sentir necessidade de o fotografar.
Caminhar sem contar os passos.
Respirar sem tentar otimizar cada inspiração.
Estar contigo próprio(a) sem procurar imediatamente uma distração.

A presença não é improdutiva.

É precisamente onde a vida acontece.

Uma reflexão gentil

Se amanhã desaparecessem todas as tuas conquistas...

O teu cargo.
O teu rendimento.
Os teus sucessos.

A interminável lista de coisas que fazes pelos outros...

Continuarias a saber quem és?

Não aquilo que fazes.
Não aquilo que construíste.
Não quem precisa de ti.

Mas quem és verdadeiramente?

Talvez esta não seja uma pergunta para responder já.

Talvez seja uma pergunta para viver.

Com calma. Um momento de cada vez.


Um convite

Durante este mês, oferece-te dez minutos de pausa.

Sem podcasts.
Sem redes sociais.
Sem planear.

Sem fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Apenas observa aquilo que surge.

Sem tentar corrigir.
Sem julgar.
Apenas com curiosidade.

Porque por detrás de tudo aquilo que fazes... Existe alguém que sempre foi suficiente.

Alguém que nunca precisou de conquistar o direito a descansar.

E talvez essa seja a versão de ti que tem esperado, pacientemente, que finalmente regresses a casa.

Com Amor,
Sabina Ali

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